1. A CAMA DAS DELÍCIAS TERRENAS


    Encontro: 10/10/2018, Categorias: Grupal, Autor: AlvaroNegromonte, Fonte: CasadosContos

    Conheci o boy num discreto piano-bar. Olhamo-nos, conversamo-nos e terminamos na cama. Belo corpo, cabeça excelente, sexo perfeito – sem essa de “só dá ou só come”: flex total, geral e irrestrito. Trocamos telefones, e o que eu pensava ter sido apenas um encontro furtivo, numa noite qualquer, sem possibilidade de virar algo mais, virou. Saímos mais algumas vezes, a despeito dos quase trinta anos que separam nossas idades. Órfão de pai, fora criado pelo padrasto, que lhe ajudou a construir uma mentalidade avançada diante da vida, do mundo e de si mesmo. Quando se descobriu bissexual, foi a ele – e não à mãe – que contou; recebeu apoio incondicional. Perdera a mãe há cinco anos, vivia só com o que ele chamava de “paidrasto”, no simples mas belo apartamento da família, que conheci no dia em que passei lá para pegá-lo e irmos fazer uma viagem de final de semana. Antonio que veio abrir a porta; disse que o enteado ainda estava no banho: não sei se minha ansiedade fez-me chegar mais cedo ou sua displicência o fizera se atrasar. O padrasto do meu namorado era um coroa lindo: por volta da minha idade, cabelos grisalhos, corpo bem tratado, barriguinha leve de cerveja – que dava para perceber através da camisa regata que trajava –, pernas torneadas – como demonstrava o folgado calção que usava. Convidou-me para sentar, e acomodou-se em frente a mim. Conversa fácil e variada, atencioso, risonho, sempre demonstrando ter uma cabeça bastante aberta. E as pernas também, abertas ... displicentemente, um dos pés sobre o sofá, o que projetava a rola, que se desenhava no tecido, ao mesmo tempo em que uma pequena amostra do saco aparecia por uma das pernas do calção. Eu estava em polvorosa. Todos os meus hormônios guerreavam no meu interior. Tentei disfarçar como pude o volume sob minha bermuda jeans, com a velha tática da almofada no colo; mas não sei se conseguia ser discreto o bastante para não me deixar pilhar por ele, olhando, vez em quando, para aquele paraíso erótico e platônico a minha frente. Falávamos sobre arte, de uma forma geral, chegando, naturalmente, à erótica. Falou-me do quadro tríptico do pintor holandês Hieronymus Bosch “O jardim das delícias terrenas”, em que o artista descreve a criação do mundo, na tela central, ladeada pelo paraíso de um lado e o inferno do outro. Mostrando-me curioso, Antonio demonstrou todo seu amor à arte, dissertando entusiasticamente sobre a obra. Afirmou que o quadro, pintado em 1504, celebra os prazeres da carne, com participantes completamente desinibidos, adeptos do amor livre; falou que prefere a cena central, por evidenciar isso com mais nitidez. Eu estava extasiado com tamanha demonstração de cultura. Quando ele disse que tinha uma réplica do quadro, emoldurada, no seu quarto, e me perguntou se queria conhecer, não pensei duas vezes. Pus-me de pé, com uma rapidez tão pouco sutil, que, penso, fez rolar por água abaixo todas a minhas tentativas de disfarce e discrição. Ao me guiar até seu aposento, com naturalidade pôs ...
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